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21 de Outubro de 2019

"Perigo: filme gay"

A reação contra as cenas de sexo entre Wagner Moura e Clemens Schick é irônica: é desse país afogado que o personagem foge no filme. Por Matheus Pichonelli

Matheus Bastos, Advogado
Publicado por Matheus Bastos
há 5 anos

Perigo filme gay

Cerca de 40 pessoas deixaram uma sala de cinema em Niterói (RJ) em repúdio às cenas de sexo entre os personagens de Wagner Moura e Clemens Schick no filme Praia do Futuro. Em João Pessoa (PB), segundo relatos postados nas redes sociais, para evitar debandada semelhante, o espectador é avisado já na bilheteria: “o filme tem cenas de sexo gay, você tem certeza de que quer assistir?”. Um carimbo de “avisado” serviria como atestado de que o cliente entrou na sessão em sã consciência. Seria uma vacina contra eventuais ofensas ao pudor: “não peça o dinheiro de volta, nós avisamos”.

A reação da plateia e o alarde em cima do tema são trágicos, mas não deixam de ser irônicos: é exatamente disso que trata o filme de Karim Aïnouz. No drama, Donato (Wagner Moura) é um salva-vidas da Praia do Futuro, em Fortaleza, que ajuda a salvar do afogamento um turista alemão, Konrad (Schick). No incidente, Konrad perde um amigo, que Donato deixa escapar. Do trauma nasce a amizade e uma atração. Da atração, uma fuga: é deste país que avisa dos perigos das cenas de sexo, como se fossem uma área imprópria para mergulho, que o personagem foge ao se mudar para a Alemanha e nunca mais dar notícias.

No Brasil, Donato tem emprego, família e a adoração do irmão caçula, Ayrton. Vidrado em histórias de super-herois, Ayrton vê no irmão não apenas as virtudes dos personagens favoritos, mas o próprio salvador. Donato, para ele, é o Aquaman.

Durante boa parte do filme, não entendemos por que Donato decide romper relações com o seu país. Há, no filme, referências escassas à sua mãe, que manda para ele o almoço nos postos de salva-vidas e surge, vez ou outra, em referências dos diálogos com o irmão. A certa altura do filme, e da vida dos personagens, Donato e Ayrton, já adolescente, se reencontram em Berlim para um acerto de contas. Diante dos questionamentos inevitáveis, o antigo Aquaman se defende: “Eu não fugi. Eu voltei para casa. Aqui não preciso ficar dentro d’água para ser livre”.

É como se dissesse: eu apenas decidi ser o que eu sou em minha superfície – algo que, em casa, seria impossível, ou ao menos incompatível com o peso de ser o heroi que não erra nem decepciona. O negócio é se mandar para onde este “erro”, uma construção social, não existe: o futuro possível e sem juízo final. Em Berlim ele pode ser o que é, com quem quiser, sem selo nem patrulha – e sem os carimbos que alertam para o “perigo gay” em sua própria terra.

Essa fuga, que é também um retorno, envolve uma decisão dura: ao escolher como e com quem viver, escolhe-se com quem e como não viver. Ao se afastar da mãe, a elipse de uma sombra condenatória, é como se o personagem decidisse morrer em parte. Não há praia em Berlim, e não é fácil ser um nadador sem praia – como não é fácil encontrar um palco onde caibam todas as decisões. Daí o desejo, a princípio inviável, de encontrar uma praia sem água para o irmão que tem medo do mar. Seria a forma alegórica de encontrar um espaço entre a família e o namorado, que não só não teme como desafia o mar e a terra o tempo todo - ele é piloto de motocicleta; este lugar improvável é o único capaz de unir tudo, inclusive o que o mergulhador foi um dia. Não deixa de ser uma versão adulta para outro filme com a temática, Hoje eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro.

É desta volta para casa, longe de casa, de que fala a obra de Aïnouz. Em OCéu de Suely, a personagem interpretada por Hermila Guedes volta para a cidade-natal no Nordeste com o filho e se perde à espera do marido que não vem. A ironia: antes de mudar de ideia, o marido jurava preferir morrer afogado a perdê-la. Em O Abismo Prateado, Alessandra Negrini percorre em círculos as ruas do Rio de Janeiro para absorver a fuga do marido. O mesmo acontece com o protagonista de Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo no filme dirigido por Aïnouz em parceria com Marcelo Gomes: o desejo de se perder para se encontrar no Sertão é a única esperança para o personagem de Irandhir Santos esquecer o abandono.

Em todos os filmes é pela elipse que se define a trama: temos a história dos abandonados e apenas a sombra de quem abandona. Desta vez a sombra se inverte: a ausência tem rosto, o rosto de Wagner Moura. Não vemos Ayrton crescer nem sabemos o que acontece com ele na ausência do irmão. A imagem da mãe, da mesma forma, é apenas uma projeção indefinida. A estrada que se alonga e se prolonga, porém, é a mesma de Hermila, João, Violeta, Djalma e José Renato, personagens dos filmes anteriores, e até de Alice, da série homônima também dirigida por Aïnouz. Todos estão em fuga para voltar para casa.

Essa estrada, desta vez em Berlim, une Donato aos antecessores. Não se trata, portanto, de um filme homoerótico, mas de um filme sobre fuga, no contexto de uma obra, cujo personagem por acaso é gay. A reação diante das cenas do filme na vida real é a materialidade desse desejo dos personagens: desaparecer para poder existir.

Ao fim das filmagens, Moura manifestou o desejo de que as cenas de sexo com outro homem não se tornassem um assunto. Queria evitar o rótulo de “filme gay”. E preferia que a relação entre eles fosse tratada com naturalidade. O desejo passou longe. Não só as cenas viraram assunto como causaram choque e recalque. É desse país que ator e personagem decidiram tomar distância – “não está dando para viver aqui”, disse Moura em entrevista recente. Impossível não imaginar seu personagem batendo em seu ombro com uma certa solidariedade: “não estamos fugindo, estamos apenas voltando para casa”.


Fonte: http://www.cartacapital.com.br/cultura/perigo-filme-gay-8793.html

65 Comentários

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Não vi nada sobre a classificação do filme. Se tem cenas de sexo (gay ou não) precisa ter a classificação correta.

Se o pessoal saiu, exerceu o direito de ir e vir, bem como de assistir ou não algo.

Se eu estivesse lá sairia também, não por preconceito, mas por não gostar desse tipo de cena.

Gostar ou não de um filme "teoricamente gay" não te faz homofóbico! continuar lendo

Pela foto da matéria a classificação do filme é 14 ANOS, porém acredito que o problema não é a classificação do filme, mas sim a dificuldade de compreensão da trama por parte da platéia. Quem não entende o enredo e a mensagem que o filme busca passar acaba ficando entediado e, com a cena de sexo consegue um pretenso motivo para levantar e ir embora. De todo modo é positivo, pois com o aumento do acesso à cultura um dia vamos ter pessoas saindo das salas somente ao final da projeções e quem sabe até discutindo calosamente as impressões e as emoções que sentiram. Avança Brasil. continuar lendo

Esse é o cerne Fabiano, e você está certo. Liberdade de expressão é um direito assim como expor a opção sexual. continuar lendo

As cenas de sexo não são explícitas. É igual qualquer "cena de sexo" de novela das 9... A classificação para 14 anos, a meu ver, é adequada. Na grande maioria dos filmes em que há um relacionamento amoroso ocorrem cenas idênticas às do filme, mas com casais heterossexuais. O preconceito não está na atitude de sair no meio da sessão, mas sim no pensamento enraizado contrário à prática implícito nessa atitude que acaba por influenciar no comportamento do indivíduo no trato social gerando efeitos secundários discriminatórios, muitas vezes. Talvez você não seria um homofóbico no tratamento com um gay, mas muitos que deixaram aquela sessão podem ser... E isso é o que mais incomoda. continuar lendo

... eu ia comentar sobre o ocorrido ser sim homofobia; parei pra ler o teu comentário e percebi que não é bem assim! tu tens toda razão! obrigado pelo Comentário. continuar lendo

Concordo plenamente com você. E, se estivesse lá, eu também sairia, é meu direito! continuar lendo

Impressionante a forma inteligente com que o ator Wagner Moura comentou a reação do público brasileiro: "Não está dando para viver aqui".
Brasil, país do baixo nível cultural, país do preconceito doentio disfarçado. continuar lendo

Caro Carlos,

Não confunda preconceito com opinião própria. Não gosto de um partido político nem aprovo suas atitudes, mas muitos gostam e aprovam seu governo, então sou obrigado a gostar ou a agir como se aprovasse? Claro que não. Ninguém gostaria disso.

Mas no caso do homosexualismo, eu sou obrigado socialmente a aceitar e viver como se aprovasse a relação homosexual em todas as suas expressões, incluindo atos libidinosos que de outra forma seriam punidos. Exemplo: se um casal tem relações num ambiente que incomoda a outros, a polícia os repreende. Porém, se o casal é homosexual, alegam que é preconceito e homofobia.

Entretanto, me refiro aqui às atitudes e comportamentos, não às pessoas. Inclusive já tive amigos declaradamente homosexuais sem qualquer tipo de discriminação e atualmente me meu trabalho há muitos, e nos tratamos perfeitamente bem. continuar lendo

Eu é que não gostaria de ter ser amigo desse Fabio Pereira Rangel.

Destila ódio a contra gotas.

Infelizmente muitos homossexuais, principalmente os masculinos tem cabecinha de melancia e se "prostituem" por aprovação e aceitação ainda. Infelizmente. continuar lendo

Impressionante o preconceito desse país: não gostar, não aplaudir cenas de sexo entre homens é tido como trágico...

Eu ficaria feliz em ser amiga do Fábio Rangel. Já de quem vê opinião contrária como destilação de ódio, só tenho medo... continuar lendo

Sábias palavras do Fábio Rangel. Assino abaixo!

Aproveito para chamar a atenção de todos para o termo "homofóbico".
Trata-se de um termo utilizado de maneira equivocada.
Fobia=medo de...
Portanto homofobia=medo de homossexuais. continuar lendo

Engraçado, quando ele interpretou e "demonstrou" as mazelas da política e milícias/polícias brasileira no "Tropa de Elite 2" ninguém se revoltou ao sair do cinema! Agora, com esse PERSONAGEM ocorre isso....realmente está difícil viver por aqui....mas é por tudo!!! continuar lendo

Pouco tempo atrás pessoas se revoltaram com o filme Árvore da Vida (com temática religiosa que na minha opinião fere o bom senso) saíam na metade da exibição. Ninguém pode ser obrigado a assistir o que não gosta. O problema é quando o filme, até por falta de censura, não deixa claro qual a sua temática, com sexo pornografia ou violência demais. A pessoa entra no cinema achando que vai ver uma coisa e encontra outra. continuar lendo

Não estou questionando gosto ou opção sexual. Aliás, sou hétero! O filme traz sim a idade indicativa para censura. É fato que vários atores já interpretaram cenas de sexo (inclusive a Xuxa!!!), sendo elas hétero ou homossexuais. Reitero que se trata de um "personagem", como o próprio Cap. Nascimento interpretado pelo aludido ator (nesse caso machão!!!) no Tropa de Elite. Ir ao cinema, sair ao término ou antes, sempre foi e será opção de quem está pagando. O Problema é o argumento utilizado, sem contextualizar se tratar de um trabalho de um grande ator/profissional. É como se o filme tivesse sexo do primeiro ao último minuto, sem se ater a um roteiro ou estória! No mais, as nossas películas nacionais, trazem em sua maioria cenas de sexo entre homens, mulheres e até animais, além do vocabulário "próprio" onipresente!!! continuar lendo

Não assisti o filme mas acho de extremo mau gosto cenas escancaradas hétero ou homo.Aliás a TV já vem colocando isso na maioria dos programas que aliás são de extremo mau gosto e afastam aqueles que desejam uma programação de qualidade.Também não sou de opinião que se imponha à população concordar ou não,aderir ou não,conviver mais intimamente ou não com qualquer atitude com a qual não tenha uma identidade ou lhe desagrade.Isso não quer dizer ser a favor de agressões ou mortes contra qualquer pessoa.È o mesmo caso das religiões.Ninguém,nem leis podem obrigar o cidadão a aderir.Respeitar à todos é básico em qualquer coisa na vida,mas essa prática adotada hoje pelo estado de fabricar diáriamente leis especificas dividindo a população por cor,raça,credo,adulto,criança ou idoso é deplorável,pois impede a evolução natural e invade a vida privada das familias. continuar lendo

Não dá para tratar a todos igualmente sem se criar desigualdades. continuar lendo

Exatamente, Marcos, o princípio da igualdade na verdade é realizado quando se tratam os desiguais de acordo com suas desigualdades... E é por isso que é necessário a adoção de determinadas regras para corrigir ou diminuir diversas dessas desigualdades, principalmente quando são extremamente prejudiciais. Nesse caso, não houve comportamento homofóbico; as pessoas simplesmente deixaram a sessão exercendo sua liberdade de opinião. O que incomoda é a mente fechada de grande parcela da população que prejudica sim, no dia a dia, a vida em sociedade de muitos grupos através do preconceito, e essa atitude é um reflexo triste dessa realidade. continuar lendo